quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Continuemos a supor que não


Os acontecimentos rebolam e amontoam-se em paletes e pacotes bem visíveis, dignos de um armazém. Um armazém, que tudo consegue amealhar. No entanto, a grande maioria de nós, continua a acreditar que não. Muitos, persistentemente crentes em algo melhor, preferem mentir a si próprios e arrecadar a certeza de que a verdade, apesar de escassa, está sempre lá, mais ou menos visível, mas constantemente presente. É tempo de começarmos a pensar que não.
Continuemos a supor que a electricidade não vai aumentar mais 2,9% em 2010, apesar dos lucros abissais da EDP, que acumulou até Setembro mais de 748 milhões, e cujo presidente (antigo ministro PSD) aufere mensalmente um valor a rondar os 50m€. Continuemos a supor que, apesar da burla que foi a compra dos submarinos (cujas comissões foram encaminhadas pelo BES para paraísos fiscais) durante o governo PSD/CDS, alguém directamente implicado terá de assumir as responsabilidades; continuemos a supor que os escândalos de corrupção, tráfico de influências, pagamento de luvas, subornos, contrapartidas, e tudo o que mais se possa ver e assistir nos telejornais, para além de tudo aquilo que não conhecemos e que não nos é mostrado, não passam de cabalas mal montadas e campanhas negras contra sujeitos inocentes, que enriqueceram à custa do suor do seu rosto, do trabalho do dia-a-dia, do seu esforço persistente, de uma vida de trabalho; continuemos a supor que os gestores ligados ao PS implicados na operação “Face Oculta” não são mais do que pessoas que estavam no lugar errado, à hora errada, com as pessoas e as escutas telefónicas erradas, sendo que continuaremos a supor que, mais uma vez, os sucateiros é que são os culpados pois pagaram, corromperam, receberam contratos e benefícios, mas ninguém lhos facultou; continuemos a supor que em mais um acto de mais uma peça de um qualquer xadrez, Armando Vara não moveu quaisquer influências junto do governo que o nomeou vice-presidente do BCP, depois de ter deixado a CGD, continuando depois a supor que não recebeu 10m€ como contrapartida de alguma coisa que, supomos todos nós, não terá feito.
Continuemos a supor que as desigualdades em Portugal não aumentaram e que a pensão média da segurança social não é de apenas 389€ por mês, ao mesmo tempo que a remuneração média dos executivos dos conselhos de administração das empresas cotadas em bolsa é cerca de 60m€ mensais; continuemos a supor que um em cada três beneficiários do RSI não tem emprego, mas os seus salários não chegam para as necessidades; continuemos a supor que a “Aerosoles” vai pagar o mês de Outubro aos mais de 600 trabalhadores e, se não pagar, terá o governo “à perna”; continuemos a supor que a Delphi não vai despedir perto de 900 trabalhadores e que mais de quarenta mil idosos não passam fome no nosso país; continuemos a supor que o desemprego não bate novos recordes e que não são os jovens que mais sofrem com este flagelo.
Continuemos a supor que tudo corre bem e que a pobreza em Portugal não pára de crescer, na exacta medida em que não param de crescer as fortunas e os lucros dos bancos e da Galp, que, supostamente, nunca desce os preços dos combustíveis com a mesma rapidez que os sobe.
Continuemos a supor que o Freeport, o caso dos Sobreiros, das fotocópias, do terminal de Alcântara, Face oculta e por aí fora, não existem, não envolvem pessoas, traficâncias e benefícios, beneficiários e proponentes.
Ainda que não queiramos supor, continuemos a fazê-lo, à espera do dia em que as suposições terminem, e que a justiça faça a sua parte. A nossa, quando deixarmos de supor que não, estará a meio caminho de ser concretizada.

Fernando Marta

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