As opções políticas do governo regional de César não param de surpreender, não pelo seu conteúdo e forma com vista a resolver os problemas dos açorianos, mas, isso sim, pela rapidez com que os seus comandados actuam sempre que se sentem acossados, questionados ou simplesmente aconselhados por quem, na sua área de actuação enquanto profissional, se sente na obrigação de transmitir ideias e críticas consistentes, simplesmente tentando vislumbrar a correcção de situações menos positivas.Na recente discussão do Plano e Orçamento para 2010, que antes de ser centralizada na Assembleia Legislativa Regional (ALRAA), foi amplamente debatida pelos militantes e activistas do PCP e da CDU na região, o governo regional de César apresentou propostas pouco firmes e especialmente desadequadas à situação de crise que os Açores vivem. De facto, não fossem as inúmeras propostas de alteração que tiveram como proponente o PCP, e das quais algumas tiveram aceitação governamental, e os documentos seriam, ainda, mais pobres. Na verdade, pena é que, da restante oposição e da bancada do partido do poder, não tenha existido o mesmo esforço e empenhamento em encontrar alternativas válidas, mas sobretudo consequentes para a valorização do aparelho produtivo regional, para o ataque ao trabalho precário e subemprego, para a melhoria das condições de trabalho dos jovens que se candidatam aos programas Estagiar, ou ainda para a assumpção de regras objectivas que passassem pelo Parlamento Regional, em matéria de futuras possíveis privatizações. No entanto, muito disto ficou pelo caminho.
Apesar da resistência do governo regional e do partido que o suporta, o PCP não deixou de lutar por ver aprovadas propostas que, se amplamente aceites, dariam um contributo inestimável na resolução dos problemas de muitos milhares de açorianos, cujo peso de baixos salários e pensões, a inexistência de verdadeiros passes sociais que privilegiem a utilização do transporte colectivo a preços mais baixos, adequados à realidade regional (região do país, excluindo o centro do país, onde o salário médio mensal é mais baixo) e às famílias mais numerosas e com menos rendimentos, o reforço das verbas para a rede regional de Cuidados Continuados, com vista à melhoria da prestação de cuidados aos mais idosos e dependentes, ou ainda a aquisição de um barco específico para o transporte de doentes entre o Pico e o Faial, a implementação da Educação Sexual nas escolas do arquipélago, ou a dotação orçamental no que ao apoio ao arrendamento jovem diz respeito, são chagas difíceis de sarar. A todas estas matérias, o PS/A disse não e, tendo em conta as propostas a que disse sim, a triste realidade é que, já no passado, apesar da aprovação de inúmeros documentos, a sua concretização ficou pelo caminho. Esperemos, para bem dos açorianos, que desta vez isso não venha a acontecer.
Das 22 propostas de alteração aos documentos que a Representação Parlamentar do PCP apresentou, não podemos deixar de referir a relevância de algumas que, pela sua urgência no contexto actual, adquirem uma importância suplementar, como o são o reforço das verbas para o combate à precariedade, ao subemprego e trabalho ilegal, o aumento de verbas para a Inspecção Regional do Trabalho, a atribuição de subsídio de alimentação aos jovens do programa Estagiar, a intervenção no sentido de dotar os edifícios públicos de melhores acessos para pessoas com deficiência, o aumento do apoio ao micro crédito e dos apoios às empresas artesanais, são absolutamente necessárias de implementar, sob pena de vermos defraudadas, mais uma vez, as expectativas de quem vive e trabalha na região.
Pese embora o debate em torno do Plano e Orçamento, a verdade é que a semana política regional não ficou por aí. Aliás, sob o ponto de vista do governo regional, a maior urgência foi, na realidade, a alteração ao sistema Regional de Saúde, que se materializou, de facto, no fim dos delegados de saúde de Ilha. O PS/A lá veio desmistificar a ideia de que terá sido o silenciar de uma voz crítica ao governo regional, encarnada na pessoa do Delegado de Saúde da Lagoa (e de São Miguel), Mário Freitas. Depois das críticas do presidente do governo de que aquele responsável teria “demasiado mediatismo”, e após as críticas (de Mário Freitas) relacionadas com o plano de contingência da gripe A, ficam poucas dúvidas de que se tratou de uma medida política, um verdadeiro xeque-mate com o objectivo de calar uma voz crítica ao governo, e ao próprio Carlos César. E isso, não se pode justificar.
Temos ouvido insistentemente nos últimos dias, a propósito dos aumentos salariais para o próximo ano, números e argumentos vários, mas na sua imensa maioria com um desgostoso denominador comum: deixar trabalhadores da administração pública e do sector privado a perder, por uma outra vez, poder de compra, como primeira medida para melhor acautelar os efeitos da crise que não se vai, e dos lucros que ainda hão-de vir. Fazendo antever que a estabilidade no trabalho não é já um dado adquirido, e que, nesta fase, conservar um lugar no mercado é já não perecer ou sucumbir ao declínio nacional e internacional, é uma teoria que começa a fazer escola no discurso de muitos dos nossos empresários, nomeadamente de cada vez que ouvimos o patrão dos patrões, ou o presidente da Câmara do Comércio. Como diria a minha avô, antes pouco do que nenhum. Como pensarão estes senhores, quanto mais lucro, melhor.






